Certos Trabalhos....
Meu Querido Neto
O mundo evolui
Mas nem sempre .....
Calçado caminho pelas calçadas de meu bairro. Sol a pino . O suor
invade minhas roupas. Por vezes paro e respiro fundo. Já não sou criança, nem
adulto jovem. Consideram-me na “melhor idade”, e tal classificação não me agrada.
Prefiro ser Velho da mesma forma que achava meu avô velho quando era criança, e
as pessoas não puxavam carroças. Respeitava meu avô por sua
sabedoria . Sabedoria que talvez não tivesse. Mas eu acreditava nisto.

Acreditava em outras coisas. Acreditava que criança , eu e todas elas , não iríamos crescer. Acreditava que a vida se resumia a meus Pais, meus amigos ,
minha escola , Natal , aniversário e outras coisas,que você Cauê pode me ajudar
a numerar.
Quando eu era criança entre 7 ou 8 anos haviam
várias profissões dignas que desapareceram.
Leiteiros, Carvoeiros, Fruteiros, Verdureiros e vários outros vendedores de mercadorias necessárias ao consumo de nossas casas.
Haviam Burros ou Cavalos, que ajudavam estes profissionais que eu
admirava tanto.Os animais seriam judiados ? Sei apenas que trabalhavam para seus Donos que em minha opinião cuidavam com respeito os Bichos , pois estes os ajudavam na profissão e lhe faziam companhia o dia todo.
Sei que os tempos mudaram. Sei que há muita dignidade naqueles que hoje
reciclam coisas e que puxam carroças no lugar dos Burros de minha infância. Hoje
o costume é assim .A gente se acostuma com a mudança dos Costumes , mas tem
algumas pessoas que se incomodam quando lembram do passado , e sentem saudade
de seu tempo de criança, das carroças guiadas por Burros,com maestria por
seus profissionais. Eu sou um destes saudosistas.Existem exceções , por vezes ainda vejo alguns animais trabalhando .Mas em cidades como São Paulo isto não é mais comum . A cidade não os comporta.
Outro dia vi um menino com seus doze anos trabalhando com muito
esforço na reciclagem, foi neste dia de Sol que escrevo aí no começo, sim,
neste mesmo dia em que eu suava muito,e acabei por sentir meu "coração tocado”e lacrimejei , talvez
por ser velho, talvez por pensar que criança deva ir à escola e brincar.Nas sobras
do tempo gastá-las com "seus botões".
Menino Trabalhador
Vem chegando o menino.
Puxando sua carroça.
E os Burros, meu Deus?
Menino Motor resfolegando
Puerili-Sapiens. As-pira a dor.
Gases que se intercruzam
Senhoras "Civic”. Senhores "Ômegas".
Menino! Atrapalhas o trânsito.
Que a rua não é sua.
Que os carros são muitos
Que as motos são tantas
Puxa menino!
Puxa vida?
Puxa a vida.
Pernas finas, fortes.
Jogador de futebol?
Bem que podia
Sonho de muitos
Verdade de poucos
Aqui nascestes
No País do poderia.
No País do entretanto.
No País do se não fosse.
Que assim se foi programando
Com-puta-dor
E assim lentamente
Vem passando o menino
Carregas o lixo
Mas quem te respeita ?
Buzinas o refugam
És bicho que impede
O ronco dos carros
O sonho dos homens
Que vais empacando
O tráfego ,a velocidade de tantos
Impedida ," Maldito sai da frente"
Por outro lado
Quando alguém repara
Seu lado " Incluído"
Percebem em ti o progresso
Não sujas as ruas
Que carros patinam em bostas de burros
Se burros houvesse
Se bichos pudessem
Assim te ajudar
.
Puxa a carroça menino
Teu relincho é baixinho
Quem é que te ouve?
Quem é que te quer?
Você que assusta
Você que trabalha
No entanto - " Não sei não "?,
Logo se escuta de alguém
Ele também pode roubar
És causa de coisas
Que os homens detestam
Os muros dos prédios
As cercas das casas
Os parques, os clubes
São tantas as chaves
Prá te vigiar
Crias empregos
Guardas, mais guardas.
Noite e dia
Que por ironia
As milhares de vagas
Seu Pai, seu tio, seu irmão.
Poderão ocupar
E vai passando o menino.
Que tanto carrega?
Que carrega tanto?
Ferro, preguiça, garrafas, tristezas, jornais.
Latas de tantas marcas
Porres de tantos homens
Tantas marcas contidas.
De tudo carregas um pouco.
Puxa menino.
Puxa vida!
Puxa a vida...
Puxa os restos
Dos restantes
Que restaram num outro tipo de vida
Carregas de tudo DIREITO A VIDA
Menos bosta de Burros
Que estas não são recicladas.