quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Meu Filme





O VELHO DA FOTO
E se fosse eu
Eu vejo, eu via
Eu vi o velho que evitava a pose da fotografia
 Sentado a mesa de jantar/ os olhos perdidos no vazio /
Tomava Coca-Cola,/ o corpo pedinte de cerveja proibida
Me tocou a alma
Digeria suas bulas medicinais, pois a caixa de remédios invadiu a mesa 
Trapaceado por extra-sístoles / taquicardias
Descompassadas atravessando o samba do seu coração
Que pulsou no peito frágil onde dançou a Vida  
O pobre queixo caído semi aberto , quase no chão/  
Queixo grave / Mole /solidão
No pescoço 
A gravata afrouxada /
O rosto franzido /as rugas/ 
Fardo do tempo /,
Distante,/ semimorto / vazio.
Acompanhado talvez?/ Catatônico transitório /  
 Ainda Respirava Ainda respirava.

Afinal,  Sentado, sem apoio....Suor  ...
Ao lado da Mulher / , nem tanto ao lado /, quase ao lado 
Na distância correta exigida dos velhos/
 Era só Castidade /Tradição e Morte 
 Era só Castidade/Tradição e Morte 
O bordão ecoa, nos meus poros  
 Me frito. Me queimo algo esquisito dói 
E sinto a foto / Ela fura os olhos /Algo de mim está LÁ
Respiro fundo 
Antes que seja tragado pelo infinito da foto
A Velha.
Parece ensinar aos netos, que o amor passa./. vai-se /...é feio
.Velhos casais em fotos por respeito à Etiqueta  
Devem dar as mãos, ou os braços
Na impossibilidade da proximidade, um neto ou uma neta na foto é "Bem Visto”
Suficiências que pode anunciar a solidez familiar 
Nesta foto que vejo algo escapa
A foto que vejo ou via é nítida /
 Cantos opostos, nem mãos, nem braços
Nada foi dado, teriam netos o casal da foto, 
Nada em Conjunto nenhum presente para a foto  
A Velha do velho /, Esposa?  Sorri bravamente!
Dispara seu flash, com olhar amoroso aos descendentes
Aos seus conhecidos / a perpetuação humana 
Ela sim, A Velha / sustenta o futuro 
Um sorriso corajoso//, comum a tantas velhas / contrasta e completa a sisudez do velho
Parece cheia de orgulho, sente a força feminina sem alarde 
A pose perfeita para a máquina fria  
Do fotografo frio, que cumpre a missão,
De fantasmas de festas / funcionários de registros  
Pois amigos
Onde há fotos, mesas e salgadinhos. Há festas 
É festa sim, só pode ser 
Todos se vestem a caráter /a foto capta anônimos do encontro
Todos incomodados com seus vestidos e gravatas 
Um casamento, um batizado, algo importante? 
Uma festa anuncia o tempo que vem É renuncia do tempo que vai
 .Nascimento e Morte / Sombra e Luz   
"Como um balde despejado." que roubo do Poema Tabacaria   ( Pessoa)
Eu me pergunto reticente
Seria o Velho meu pai?
Percebo que não, meu pai nunca tomaria coca-cola, nem que a cirrose cantasse
Nem que a cirrose cantasse mais alto
Meu pai estaria bêbado, nem faria pose, seria o inverso do fotografado, o alheio  
Estaria perdido em seus devaneios, em suas perturbações, em suas perseguições
Mas não teria o olhar semimorto do Velho da foto
Meu Pai morreu Vivo
Penso então no meu avô, o meu avô dos lenços brancos 
 Meu avô dos lenços brancos tomaria a coca - cola... mas o queixo caído  não deixaria 
Era altivo, acreditava ser engenheiro, mas era mestre de obras, 
Construiu Cafelândia, diziam as Boas Línguas  
Era bravo com todos, todos eram inferiores. Todos se calavam, 
Meu avô, e a T.V, Silvio Santos nas tardes de domingo 
O Peru falava, o silêncio era a Lei 
Oi Lombardi... e a voz surgia
Aí “O Bicho Pegava”. 
Psiu, bradava irritado- SILENCIO! , o velho 
A voz do vovô ecoava pela casa,
Minha vovó espanhola tremia e suspirava quieta  
O Italiano dos lenços brancos é quem mandava.
 Marido Potente ombros largos, feroz 
Portanto não era o velho da foto. Meu avô também era outro   
O velho da foto não gritaria, faltava-lhe boca

Tinha um "QUÊ" de meu Tio Flavio, que escondia o sorriso 
Para esconder a gengiva, agarrando cacos  de dentes
Os tempos eram outros  
Hoje é claro 
Pessoas merecem ter dentes bonitos,  
Pessoas sem dentes carregam nos ombros 
A humilhação de Cristo. 
Mas Tio Flavio não era nem Cristo, nem o Velho da foto 
Meu tio faria pose  
Tapando a boca constrangido, egípcio
O velho da foto faltava-lhe bocas 
Sobravam-lhe dentes, parecia ranger 
Que Velho era este! , que me impressionou 
Que Velho era este que sei que não sou 
Às vezes escrevo coisas insensatas como esta 
Prá me livrar de fantasmas 
De coisas possíveis 
Que tudo do outro 
Posso ser 
Que tudo do outro 
Posso sentir 
Que tudo do outro 
Posso afundar 
Não quero pose 
Mas também não quero o vazio  
Que eu morra vivo como o meu Pai 
Mas sem medo da vida, sem gerar feridas
Que o velho da foto
Eu senti /Tinha o desgosto no rosto / E o amor de um Colibri



Um comentário:

  1. Esta noite numa festa pude ver que realmente estava velho . Não o velho que vi . Um outro velho que me deixou reflexivo e acabrunhado . A festa perdeu o sentido , a foto tomou conta de mim . Aprenda algo , não se prenda a pedaços de uma festa . Tente vivê-la por completo , deixe o detalhe das festas para os outros .Detalhes complicados vivemos todos os dias . Festas divertidas são raras ...

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