O VELHO DA FOTO
E se fosse eu
Eu vejo, eu via
Eu vi o velho que evitava a pose da fotografia
Sentado a mesa de jantar/ os olhos perdidos no vazio /
Tomava Coca-Cola,/ o corpo pedinte de cerveja proibida
Me tocou a alma
Digeria suas bulas medicinais, pois a caixa de remédios invadiu a mesa
Trapaceado por extra-sístoles / taquicardias
Descompassadas atravessando o samba do seu coração
Que pulsou no peito frágil onde dançou a Vida
O pobre queixo caído semi aberto , quase no chão/
Queixo grave / Mole /solidão
No pescoço
A gravata afrouxada /
O rosto franzido /as rugas/
Fardo do tempo /,
Distante,/ semimorto / vazio.
Acompanhado talvez?/ Catatônico transitório /
Ainda Respirava Ainda respirava.
Afinal, Sentado, sem apoio....Suor ...
Ao lado da Mulher / , nem tanto ao lado /, quase ao lado
Na distância correta exigida dos velhos/
Era só Castidade /Tradição e Morte
Era só Castidade/Tradição e Morte
O bordão ecoa, nos meus poros
Me frito. Me queimo algo esquisito dói
E sinto a foto / Ela fura os olhos /Algo de mim está LÁ
Respiro fundo
Antes que seja tragado pelo infinito da foto
A Velha.
Parece ensinar aos netos, que o amor passa./. vai-se /...é feio
.Velhos casais em fotos por respeito à Etiqueta
Devem dar as mãos, ou os braços
Na impossibilidade da proximidade, um neto ou uma neta na foto é "Bem Visto”
Suficiências que pode anunciar a solidez familiar
Nesta foto que vejo algo escapa
A foto que vejo ou via é nítida /
Cantos opostos, nem mãos, nem braços
Nada foi dado, teriam netos o casal da foto,
Nada em Conjunto nenhum presente para a foto
A Velha do velho /, Esposa? Sorri bravamente!
Dispara seu flash, com olhar amoroso aos descendentes
Aos seus conhecidos / a perpetuação humana
Ela sim, A Velha / sustenta o futuro
Um sorriso corajoso//, comum a tantas velhas / contrasta e completa a sisudez do velho
Parece cheia de orgulho, sente a força feminina sem alarde
A pose perfeita para a máquina fria
Do fotografo frio, que cumpre a missão,
De fantasmas de festas / funcionários de registros
Pois amigos
Onde há fotos, mesas e salgadinhos. Há festas
É festa sim, só pode ser
Todos se vestem a caráter /a foto capta anônimos do encontro
Todos incomodados com seus vestidos e gravatas
Um casamento, um batizado, algo importante?
Uma festa anuncia o tempo que vem É renuncia do tempo que vai
.Nascimento e Morte / Sombra e Luz
"Como um balde despejado." que roubo do Poema Tabacaria ( Pessoa)
Eu me pergunto reticente
Seria o Velho meu pai?
Percebo que não, meu pai nunca tomaria coca-cola, nem que a cirrose cantasse
Nem que a cirrose cantasse mais alto
Meu pai estaria bêbado, nem faria pose, seria o inverso do fotografado, o alheio
Estaria perdido em seus devaneios, em suas perturbações, em suas perseguições
Mas não teria o olhar semimorto do Velho da foto
Meu Pai morreu Vivo
Penso então no meu avô, o meu avô dos lenços brancos
Meu avô dos lenços brancos tomaria a coca - cola... mas o queixo caído não deixaria
Era altivo, acreditava ser engenheiro, mas era mestre de obras,
Construiu Cafelândia, diziam as Boas Línguas
Era bravo com todos, todos eram inferiores. Todos se calavam,
Meu avô, e a T.V, Silvio Santos nas tardes de domingo
O Peru falava, o silêncio era a Lei
Oi Lombardi... e a voz surgia
Aí “O Bicho Pegava”.
Psiu, bradava irritado- SILENCIO! , o velho
A voz do vovô ecoava pela casa,
Minha vovó espanhola tremia e suspirava quieta
O Italiano dos lenços brancos é quem mandava.
Marido Potente ombros largos, feroz
Portanto não era o velho da foto. Meu avô também era outro
O velho da foto não gritaria, faltava-lhe boca
Tinha um "QUÊ" de meu Tio Flavio, que escondia o sorriso
Para esconder a gengiva, agarrando cacos de dentes
Os tempos eram outros
Hoje é claro
Pessoas merecem ter dentes bonitos,
Pessoas sem dentes carregam nos ombros
A humilhação de Cristo.
Mas Tio Flavio não era nem Cristo, nem o Velho da foto
Meu tio faria pose
Tapando a boca constrangido, egípcio
O velho da foto faltava-lhe bocas
Sobravam-lhe dentes, parecia ranger
Que Velho era este! , que me impressionou
Que Velho era este que sei que não sou
Às vezes escrevo coisas insensatas como esta
Prá me livrar de fantasmas
De coisas possíveis
Que tudo do outro
Posso ser
Que tudo do outro
Posso sentir
Que tudo do outro
Posso afundar
Não quero pose
Mas também não quero o vazio
Que eu morra vivo como o meu Pai
Mas sem medo da vida, sem gerar feridas
Que o velho da foto
Eu senti /Tinha o desgosto no rosto / E o amor de um Colibri
Esta noite numa festa pude ver que realmente estava velho . Não o velho que vi . Um outro velho que me deixou reflexivo e acabrunhado . A festa perdeu o sentido , a foto tomou conta de mim . Aprenda algo , não se prenda a pedaços de uma festa . Tente vivê-la por completo , deixe o detalhe das festas para os outros .Detalhes complicados vivemos todos os dias . Festas divertidas são raras ...
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